Resposta a Hebe Mattos: “Sobre a BNCC e os historiadores”

 

 

(Por Alexandre Santos de Moraes)

Peço licença

Aos donos da mangueira

Pra ver uma pastora

Que eu gostei de ver

Que eu gostei de ver sambar

(Peço Licença — Zé Kéti)

Zé Kéti, que era compositor da Portela, endereçou o samba Peço Licença "aos donos da Mangueira". No programa MPB Especial de 1973 ele nos conta que namorava uma moça chamada Tina, filha de Tinguinha, vice-presidente da Estação Primeira. Como era radicado em outra agremiação, era de bom tom que chegasse devagar, com respeito, sinalizando suas boas intenções. Era como se fosse um estrangeiro adentrando um território hostil. Peço licença a Zé Kéti para adotar o mesmo expediente nesse texto, bem diferente no compasso e no entushiásmos que sua música provoca. Peço licença porque respeito a posição de minha colega de departamento, porque sinalizo a intenção de promover um diálogo democrático acerca da BNCC, mas, principalmente, porque me sinto um estrangeiro nessa questão.

Concordo com o texto de Hebe Mattos em muitos pontos. Estou de acordo, por exemplo, que é preciso questionar a necessidade de uma Base Nacional Comum, variável que se for levada a sério faz ruir todo o debate subsequente, já que o conteúdo fica subordinado ao princípio que rege sua existência. Concordo também que é preciso um diálogo com toda a comunidade de educadores, de historiadores e com a sociedade antes de ser aprovada. Mas é aí que surge o hiato que distingue a forma com que nos posicionamos. Após essas considerações, ela escreve: "Mas fico feliz que tenhamos largado para discussão a partir de um documento tão radical no seu esforço de romper com o eurocentrismo que informa a concepção de história até agora predominante no ensino de história do país".

Antes de tudo, não acredito que essa discussão esteja realmente acontecendo. A forma com que a BNCC foi apresentada, de supetão, com mais ou menos três meses para a consulta pública, é o primeiro ponto. Três meses é tempo suficiente para ler, refletir, criticar e propor uma alternativa a um documento dessa envergadura até então desconhecido? Mais do que isso, só podemos criticar aspectos pontuais, pois seus fundamentos estão blindados. A proposta só pode ser aperfeiçoada, e não repensada. Não há diálogo aberto se os termos são limitados por princípio, de modo que a ideia de consulta pública fica perigosamente comprometida. E vou além: por se tratar de um documento que busca prescrever aquilo que os professores deverão ensinar, seria de bom tom que todos os procedimentos e critérios que presidiram sua elaboração estivessem bem expostos. Quem tem interesse na discussão não pode ser tratado como estrangeiro, até porque xenofobia deveria ser coisa do passado. Não questiono a competência de quem redigiu a BNCC, mas que instância burocrática fez essa seleção? Quais foram os critérios? Por que apenas especialistas em Ensino de História? Pesquisa e ensino estão separados, a despeito dos discursos que criticam sua dissociação? Quem estabeleceu os critérios do que pode ser criticado? Quem vai analisar e julgar quais as críticas que procedem? Essa é apenas a ponta do iceberg, pois há que se discutir com clareza que modelo de educação está se buscando e, principalmente, qual é a real influência de entidades privadas nesse processo. Se a largada se deu dessa forma, temo que sejamos retardatários nessa corrida. Estrangeiros em um país de língua estranha.

Outro ponto importante, que tem sido pouco problematizado pela rapidez com que o debate precisa ser feito, é a questão do eurocentrismo. Estou plenamente de acordo que é um tema que exige reflexão, mas desconfio que a crítica ao eurocentrismo não se radique apenas na exclusão ou nas menções esporádicas a eventos históricos que seriam peculiares à Europa ou, melhor dizendo, ao espaço que hoje compreende aquilo que chamamos Europa. Fico imaginando que boa parte dos autores que nos estimulam a pensar os problemas brasileiros são europeus, e eles escrevem na e para a Europa na maioria das vezes. O eurocentrismo estaria apenas no sumário dos assuntos que poderíamos debater ou nos modelos que dão caldo para os assuntos debatidos? Mais do que isso, será que os pesquisadores que elaboraram a BNCC sabem que é possível pensar a Grécia Antiga, por exemplo, para além do paradigma eurocêntrico? Recordo o livro Unthinking the Greek Polis — Ancient Greek History beyond Eurocentrism (2007), de Kostas Vlassopoulos, que desencadeou uma discussão muito em voga sobre a forma com que os modelos nacionalistas europeus atuaram na construção da história da Grécia Antiga. Ora, se a crítica é ao eurocentrismo, se o problema está colocado e se ele participa da forma com que refletimos sobre a Antiguidade, o que justifica a absoluta exclusão da História Antiga do currículo escolar? Chega a ser curioso que a história dos gregos seja identificada com eurocentrismo no exato momento em que boa parte dos próprios gregos, em função da longa e interminável crise econômica, questione seu lugar na União Europeia.

Mas estou razoavelmente de acordo com Hebe Mattos quando ela diz que "A entrada pela história do Brasil, espaço de inserção política do estudante, faz todo sentido no contexto de uma base curricular mínima nacional [grifo dela]". No entanto, faço uma ressalva, pois temo que essa entrada não possua uma saída. Ela não é apenas o ponto de partida, mas também o de chegada. O problema não é fazer uma História do Brasil, mas uma História do Brasil que opera sob a lógica do nacionalismo (uma ideia, aliás, bastante europeia e eurocêntrica). Todos nós fazemos História do Brasil, ainda que pesquisemos a Antiguidade. Ainda que o célebre aforismo de Croce soe um pouco démodé, é difícil negar que toda história seja contemporânea, até porque Marc Bloch (e este não sai de moda!) sinalizou que "passado não é objeto de ciência". O Brasil e as questões de nosso tempo estão sempre incrustados em nosso horizonte. Por que não discutir a República Romana colocando nossa própria República em perspectiva? A questão feminina na Atenas Clássica, que ganhou fama cá no Brasil a partir da fina ironia de Chico Buarque, não nos ajudaria a refletir sobre as diferenças de gênero em nosso tempo? Não seria proveitoso comparar a democracia ateniense com a nossa democracia, como muitos historiadores brasileiros já fizeram? E que tal refletir sobre o "branquemento" dos egípcios antigos, objeto de análise, por exemplo, do historiador senegalês Cheikh Anta Diop, que teve sua tese de doutoramento recusada na Paris de 1951 por levantar essa discussão? Penso que a BNCC limitou uma proposta que, em si, é boa. Todos os temas são importantes, mas a forma com que são abordados é tão empobrecedora que produz ausências inadmissíveis. Começou mal, nos confins de um gabinete, razão pela qual feriu os olhos quando conheceu a luz do dia.

É por essas razões que não concordo com Hebe Mattos quando ela sugere "que a incorporação da noção de história Atlântica, articulando América, Europa e África, a partir da expansão marítima e comercial europeia, pode ser uma chave de leitura eficaz para superar o problema". A ideia é boa, mas pra mim continua sendo pouco. Podemos ir além. Até porque nem mesmo o samba, caso se concorde com Hermano Vianna, símbolo sempre evocado para a exortação da brasilidade, nasce dialogando com o estrangeiro. Decerto não tanto por ser um misto de coreografia africana com fandangos espanhóis e portugueses (como relatou o viajante Thomas Lindley em 1802), mas porque se rebelou, desde seu nascedouro, à finessè e às regras de etiqueta das elites baianas e cariocas que desconfiavam do ritmo vadio que até hoje nos faz sentir um pouco mais brasileiros quando ouvimos. Os gregos chamavam essa sensação de enthusiásmos, palavra que por causa de nossa própria história dispensa tradução.

Niterói, 2 de dezembro de 2015 — Dia Nacional do Samba.

Alexandre Santos de Moraes

 

Texto disponível: https://medium.com/@alexandremoraes

02 Dez 2015 1 Comentário
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(Por Alexandre Santos de Moraes)

Peço licença

Aos donos da mangueira

Pra ver uma pastora

Que eu gostei de ver

Que eu gostei de ver sambar

(Peço Licença — Zé Kéti)

Zé Kéti, que era compositor da Portela, endereçou o samba Peço Licença "aos donos da Mangueira". No programa MPB Especial de 1973 ele nos conta que namorava uma moça chamada Tina, filha de Tinguinha, vice-presidente da Estação Primeira. Como era radicado em outra agremiação, era de bom tom que chegasse devagar, com respeito, sinalizando suas boas intenções. Era como se fosse um estrangeiro adentrando um território hostil. Peço licença a Zé Kéti para adotar o mesmo expediente nesse texto, bem diferente no compasso e no entushiásmos que sua música provoca. Peço licença porque respeito a posição de minha colega de departamento, porque sinalizo a intenção de promover um diálogo democrático acerca da BNCC, mas, principalmente, porque me sinto um estrangeiro nessa questão.

Concordo com o texto de Hebe Mattos em muitos pontos. Estou de acordo, por exemplo, que é preciso questionar a necessidade de uma Base Nacional Comum, variável que se for levada a sério faz ruir todo o debate subsequente, já que o conteúdo fica subordinado ao princípio que rege sua existência. Concordo também que é preciso um diálogo com toda a comunidade de educadores, de historiadores e com a sociedade antes de ser aprovada. Mas é aí que surge o hiato que distingue a forma com que nos posicionamos. Após essas considerações, ela escreve: "Mas fico feliz que tenhamos largado para discussão a partir de um documento tão radical no seu esforço de romper com o eurocentrismo que informa a concepção de história até agora predominante no ensino de história do país".

Antes de tudo, não acredito que essa discussão esteja realmente acontecendo. A forma com que a BNCC foi apresentada, de supetão, com mais ou menos três meses para a consulta pública, é o primeiro ponto. Três meses é tempo suficiente para ler, refletir, criticar e propor uma alternativa a um documento dessa envergadura até então desconhecido? Mais do que isso, só podemos criticar aspectos pontuais, pois seus fundamentos estão blindados. A proposta só pode ser aperfeiçoada, e não repensada. Não há diálogo aberto se os termos são limitados por princípio, de modo que a ideia de consulta pública fica perigosamente comprometida. E vou além: por se tratar de um documento que busca prescrever aquilo que os professores deverão ensinar, seria de bom tom que todos os procedimentos e critérios que presidiram sua elaboração estivessem bem expostos. Quem tem interesse na discussão não pode ser tratado como estrangeiro, até porque xenofobia deveria ser coisa do passado. Não questiono a competência de quem redigiu a BNCC, mas que instância burocrática fez essa seleção? Quais foram os critérios? Por que apenas especialistas em Ensino de História? Pesquisa e ensino estão separados, a despeito dos discursos que criticam sua dissociação? Quem estabeleceu os critérios do que pode ser criticado? Quem vai analisar e julgar quais as críticas que procedem? Essa é apenas a ponta do iceberg, pois há que se discutir com clareza que modelo de educação está se buscando e, principalmente, qual é a real influência de entidades privadas nesse processo. Se a largada se deu dessa forma, temo que sejamos retardatários nessa corrida. Estrangeiros em um país de língua estranha.

Outro ponto importante, que tem sido pouco problematizado pela rapidez com que o debate precisa ser feito, é a questão do eurocentrismo. Estou plenamente de acordo que é um tema que exige reflexão, mas desconfio que a crítica ao eurocentrismo não se radique apenas na exclusão ou nas menções esporádicas a eventos históricos que seriam peculiares à Europa ou, melhor dizendo, ao espaço que hoje compreende aquilo que chamamos Europa. Fico imaginando que boa parte dos autores que nos estimulam a pensar os problemas brasileiros são europeus, e eles escrevem na e para a Europa na maioria das vezes. O eurocentrismo estaria apenas no sumário dos assuntos que poderíamos debater ou nos modelos que dão caldo para os assuntos debatidos? Mais do que isso, será que os pesquisadores que elaboraram a BNCC sabem que é possível pensar a Grécia Antiga, por exemplo, para além do paradigma eurocêntrico? Recordo o livro Unthinking the Greek Polis — Ancient Greek History beyond Eurocentrism (2007), de Kostas Vlassopoulos, que desencadeou uma discussão muito em voga sobre a forma com que os modelos nacionalistas europeus atuaram na construção da história da Grécia Antiga. Ora, se a crítica é ao eurocentrismo, se o problema está colocado e se ele participa da forma com que refletimos sobre a Antiguidade, o que justifica a absoluta exclusão da História Antiga do currículo escolar? Chega a ser curioso que a história dos gregos seja identificada com eurocentrismo no exato momento em que boa parte dos próprios gregos, em função da longa e interminável crise econômica, questione seu lugar na União Europeia.

Mas estou razoavelmente de acordo com Hebe Mattos quando ela diz que "A entrada pela história do Brasil, espaço de inserção política do estudante, faz todo sentido no contexto de uma base curricular mínima nacional [grifo dela]". No entanto, faço uma ressalva, pois temo que essa entrada não possua uma saída. Ela não é apenas o ponto de partida, mas também o de chegada. O problema não é fazer uma História do Brasil, mas uma História do Brasil que opera sob a lógica do nacionalismo (uma ideia, aliás, bastante europeia e eurocêntrica). Todos nós fazemos História do Brasil, ainda que pesquisemos a Antiguidade. Ainda que o célebre aforismo de Croce soe um pouco démodé, é difícil negar que toda história seja contemporânea, até porque Marc Bloch (e este não sai de moda!) sinalizou que "passado não é objeto de ciência". O Brasil e as questões de nosso tempo estão sempre incrustados em nosso horizonte. Por que não discutir a República Romana colocando nossa própria República em perspectiva? A questão feminina na Atenas Clássica, que ganhou fama cá no Brasil a partir da fina ironia de Chico Buarque, não nos ajudaria a refletir sobre as diferenças de gênero em nosso tempo? Não seria proveitoso comparar a democracia ateniense com a nossa democracia, como muitos historiadores brasileiros já fizeram? E que tal refletir sobre o "branquemento" dos egípcios antigos, objeto de análise, por exemplo, do historiador senegalês Cheikh Anta Diop, que teve sua tese de doutoramento recusada na Paris de 1951 por levantar essa discussão? Penso que a BNCC limitou uma proposta que, em si, é boa. Todos os temas são importantes, mas a forma com que são abordados é tão empobrecedora que produz ausências inadmissíveis. Começou mal, nos confins de um gabinete, razão pela qual feriu os olhos quando conheceu a luz do dia.

É por essas razões que não concordo com Hebe Mattos quando ela sugere "que a incorporação da noção de história Atlântica, articulando América, Europa e África, a partir da expansão marítima e comercial europeia, pode ser uma chave de leitura eficaz para superar o problema". A ideia é boa, mas pra mim continua sendo pouco. Podemos ir além. Até porque nem mesmo o samba, caso se concorde com Hermano Vianna, símbolo sempre evocado para a exortação da brasilidade, nasce dialogando com o estrangeiro. Decerto não tanto por ser um misto de coreografia africana com fandangos espanhóis e portugueses (como relatou o viajante Thomas Lindley em 1802), mas porque se rebelou, desde seu nascedouro, à finessè e às regras de etiqueta das elites baianas e cariocas que desconfiavam do ritmo vadio que até hoje nos faz sentir um pouco mais brasileiros quando ouvimos. Os gregos chamavam essa sensação de enthusiásmos, palavra que por causa de nossa própria história dispensa tradução.

Niterói, 2 de dezembro de 2015 — Dia Nacional do Samba.

Alexandre Santos de Moraes

 

Texto disponível: https://medium.com/@alexandremoraes

Última modificação em Quinta, 03 Dezembro 2015 18:05

1 Comentário

  • Smitha560 14 Agosto 2016

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