V COLÓQUIO NACIONAL MICHEL FOUCAULT: A ARTE NEOLIBERAL DE GOVERNAR E A EDUCAÇÃO

02 Ago 2017 0 comment
Michel Foucault, no início da década de 1970, começa a se interessar e a se ocupar, em suas pesquisas, com a atuação do poder sobre os corpos e sobre a vida na sociedade ocidental. Seu empreendimento de análise remonta aos percursos das várias tecnologias de poder a partir do século XVII até a sofisticada constituição da estrutura política contemporânea, demarcando o eixo genealógico de sua obra, no qual há a indagação sobre as relações mantidas através de estratégias e táticas de poder na produção de saberes e como o sujeito se constitui nessa articulação poder-saber.

No desenvolvimento desse eixo genealógico, a partir da trilogia dos cursos Em defesa da sociedade (1975-1976), Segurança, território, população (1977-1978) e Nascimento da biopolítica (1978-1979) desenvolvidos no Collège de France, Foucault provoca um certo deslocamento ou mesmo uma ampliação de sua analítica do poder, perfazendo uma incursão na reflexão acerca do Estado, como governo sob forma política, tematizando as artes de governar.

Dessa forma, há o acoplamento na analítica do poder, de outros domínios, de outros conjuntos de práticas e também de outras instâncias, de sorte que o domínio do corpo e das instituições, adstrito à tecnologia disciplinar é ampliado para o domínio da vida dos homens e de sua gestão, numa estratégia biopolítica de regulação da vida.

Na problemática descortinada pela biopolítica, inscreve-se a noção de governamentalidade como um Estado de governo que tem seu ponto de incidência na população e que Foucault mobiliza para a compreensão da relação Estado-população, entendendo a governamentalização do Estado como um problema da modernidade e que traz os próprios limites e sobrevivência da política estatal como algo que só pode ser compreendido a partir de técnicas e táticas gerais de poder ligados ao modo de condução da vida dos homens.

Trata-se de dimensionar o Estado no inventário da problemática do governo através da análise dos mecanismos de segurança na percepção de questões específicas da população, o que consubstancia a série segurança-população-governo, tendo como desdobramentos o estudo do liberalismo e dos neoliberalismos como artes de governar.

É no jogo entre população e indivíduo, entre regulação e disciplina, por assim dizer, que são engendradas práticas sociais, configurando e reconfigurando instituições na imanência dessas mesmas práticas sociais que têm na governamentalização do Estado seu ancoradouro e, paralelamente, seu escoamento, uma vez que a própria governamentalidade é a um só tempo, interior e exterior ao Estado.

A problemática da governamentalidade assinala a entrada da questão do Estado no campo da análise política dos micropoderes, de modo que a gestão dos processos biossociológicos das massas humanas envolve os aparelhos do Estado, o que permite compreender a arte neoliberal de governar como forma de racionalidade própria dos dispositivos de regulação biopolítica no tempo presente.

O campo educacional, certamente é um locus em que essa racionalidade neoliberal, assim como práticas fundamentadas nessa racionalidade, entendida como um modo de vida, ganha cada vez mais espaço na atualidade. A escola decifrada pela forma econômica do mercado, por sua vez, funciona como um aparelho de biorregulação produzindo subjetividades individuais e sociais emaranhadas no modo de vida neoliberal, conectando-se a mecanismos que atuam em defesa da sociedade como se encontra montada.

Pro isso, a realização do V Colóquio Nacional Michel Foucault, elegendo como temática a arte neoliberal de governar e a educação, constitui um importante espaço para a problematização sobre os efeitos da função da educação dirigida pela lógica neoliberal, assim como, para a reflexão acerca de sua potência de criatividade e resistência aos códigos de inteligibilidade do mercado, especialmente nesse momento histórico que nos atravessa.

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